750 mil podem morrer de fome na Somália

Organização da ONU para Agricultura e Alimentação anuncia avanço da epidemia pelo e diz que situação vai piorar. Foto: Michael Goldfarb/Médicos Sem Fronteiras
O estado de fome, que atinge cerca de quatro milhões de pessoas, espalhou-se para a região de Bay, ao Sul. Um levantamento de agosto encontrou índices de desnutrição aguda e alta taxa de mortalidade na área, controlada por grupos insurgentes islâmicos.
Pela definição, para haver um estado de fome, declarado no país africano em julho, pelo menos 20% das residências devem estar em grave penúria alimentar, 30% da população com desnutrição aguda e uma taxa de mortalidade de duas para cada 10 mil pessoas por dia.
As crianças são a maioria das vítimas. Em agosto, os EUA já estimavam em 29 mil o número de mortos com menos de cinco anos em decorrência da fome.
Envio de alimentos
A ajuda humanitária enfrenta dificuldades para levar e distribuir alimentos no país, uma vez que as regiões mais atingidas pela seca, ao Sul da Somália, são controladas por insurgentes. Esses grupos não permitem a ação de organizações internacionais em seus territórios.
Em julho, grupos extremistas islâmicos, que segundo a ONU e os EUA são ligados à Al Qaeda, queimaram alimentos e medicamentos enviados pelas Nações Unidas ao país. Além disso, mataram funcionários de grupos humanitários e passaram a exigir propina para deixar os alimentos chegarem à população.
Por isso, os somalis fogem para campos de deslocados internos na capital Mogadíscio, que já acumulam mais de 400 mil pessoas. Outros atravessam a fronteira com o Quênia em direção ao campo de refugiados de Dadaab, o maior do mundo, no qual vivem 440 mil indivíduos.
Veja abaixo imagens do campo de refugiados de Dadaab, no Quênia:
Somália: Mãe tem que decidir qual dos seus filhos salvar da fome
Wardo Mohamud Yusuf, uma refugiada de 29 anos, teve que tomar uma decisão que nenhuma mãe desejaria passar: escolher qual dos filhos salvar da fome após duas semanas de caminhada entre a Somália e o campo de Dadaab, no Quênia.
“Eu decidi deixá-lo aos cuidados de Deus na estrada”, disse a jovem mãe durante entrevista no maior campo de refugiados do mundo. “Tenho certeza de que ele ainda estava vivo, e essa é minha maior dor.”
Quando o menino desmaiou perto do fim da jornada, ela colocou um pouco da água que lhe restava na sua cabeça, para refrescá-lo. Mas ele já estava inconsciente e não conseguia beber.
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Yusuf andou duas semanas com uma filha de 1 ano nas costas e o filho de 4 anos ao seu lado, fugindo da seca e da fome na Somália, país que teve situação de fome crônica decretada pela ONU. A mais severa seca dos últimos 60 anos afeta 12,5 milhões de pessoas na região conhecida como Chifre da África. A situação pela qual Yusuf passou não foi a única. Pais deixando a área devastada a pé, muitas vezes com até sete filhos, têm tido de fazer escolhas semelhantes: “Qual dos filhos tem mais chances de sobreviver quando não resta mais água ou comida?” “Qual deve ser deixado para trás?”
“Eu nunca tinha vivido um dilema como este em minha vida”, afirma Yusuf. “Agora, eu estou revivendo a dor de abandonar o meu filho. Acordo à noite pensando sobre ele. Me sinto terrível quando vejo um menino da idade dele.”
O especialista em saúde mental da Comitê Internacional de Refugiados em Dadaab, John Kivelenge, afirma que esta situação extrema têm sido enfrentada por muitos pais em fuga da Somália.
“É uma reação normal numa situação anormal. Eles não podem simplesmente parar e esperar para morrerem juntos”, diz. “Mas após um mês, eles continuam a sofrer distúrbios de estresse pós-traumático, que se manifesta em lembranças e pesadelos.”
“A imagem das crianças que eles abandonam volta a persegui-los. Este pais também vão sofrer com insônia e problemas sociais”, completa o especialista.
Os Estados Unidos estimam que mais de 29 mil crianças somalis abaixo dos 5 anos de idade morreram de fome nos últimos três meses. Um número desconhecido que está fraco demais para continuar a caminhada é deixado pelos pais na estrada de terra, que imaginam que conseguirão socorrê-los depois que conseguirem novos suprimentos de comida e água.
Fonte: g1


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